Oi!
Eu estive, e de certa forma ainda estou, passando por um processo de reorganização mental e emocional, algo que parece acontecer comigo de tempos em tempos. É foda. Talvez seja uma espécie de esgotamento, algo parecido com burnout, não sei dizer ao certo. Os sintomas parecem semelhantes, mas não quero sair dando nomes ao que não compreendo completamente. O que sei é que já passei por momentos assim e, pelo menos até hoje, eles acabaram passando.
O fato é que nós, criadores, pessoas que gostam de criar coisas, inventar moda, hahaha, costumamos ter muitas ideias. Muitas mesmo! Sejam histórias, conceitos, personagens ou até coisas que não têm relação direta com aquilo que normalmente fazemos. Eu, por exemplo, sempre gostei de criar coisas relacionadas à tecnologia, desenvolver sites, sistemas, produzir vídeos, desenhar, escrever, compartilhar pensamentos como este e tantas outras coisas. Parece que existe sempre alguma coisa nova que gostaríamos de experimentar, desenvolver ou simplesmente tirar da cabeça e transformar em algo real.
Quando nossa mente está a mil e estamos gostando disso, é maravilhoso. Temos ideias, colocamos a mão na massa, sentimos prazer no processo e ficamos empolgados com as possibilidades. O problema é que, às vezes, acabamos nos abarrotando de coisas, tudo ao mesmo tempo, como eu costumo fazer. Aquilo que inicialmente era prazeroso começa a se transformar em uma sucessão de responsabilidades, expectativas e cobranças que nós mesmos criamos.
Hoje em dia até estou um pouco mais controlado. Parei de sair criando qualquer coisa sem pensar. Antigamente, bastava ter uma ideia para começar a executá-la imediatamente. Eu já começava a desenhar sem nem saber direito do que se tratava a história, começava a programar sites e sistemas sem amadurecer o conceito, sem avaliar se aquilo realmente fazia sentido ou se eu teria disposição para levar adiante. Tudo virava um projeto, e quase toda ideia parecia merecer minha atenção naquele exato momento. Isso acabava me fazendo mal, porque muitas dessas iniciativas se tornavam obrigações que eu não havia planejado assumir. E, infelizmente, nos últimos dias acabei repetindo esse comportamento.
Eu e minha mulher estamos criando um negócio para ela e, como de costume, várias ideias começaram a surgir na minha cabeça. Uma delas envolvia desenvolver um site, um sistema e algumas outras coisas que poderiam ajudar no funcionamento do negócio. Dediquei alguns dias a isso, pensando, planejando e desenvolvendo, até que conversamos melhor e percebemos que não era o momento ou que aquilo simplesmente não fazia tanto sentido quanto parecia inicialmente. A ideia foi cancelada. Isso me frustrou, claro, mas tudo bem, faz parte. O problema é que, depois disso, vieram outros desafios, outras decisões e preocupações que precisávamos resolver, e tudo foi consumindo minha energia.
Abrir um negócio, registrar tudo corretamente, lidar com burocracias, documentos, exigências legais, entender como as coisas vão funcionar e resolver uma infinidade de pequenos problemas é um saco. Mesmo quando estamos fazendo algo positivo, que pode trazer bons resultados no futuro, o processo pode ser extremamente cansativo. E, abrindo um parêntese aqui, como me faz falta conseguir chorar como uma criança. Eu raramente consigo chorar, e sinto falta disso. Às vezes, tenho a impressão de que um bom choro aliviaria parte dessa pressão que vai se acumulando dentro de mim. Em vez disso, parece que vou absorvendo tudo, guardando as frustrações, o cansaço e as preocupações, até chegar a um ponto em que já não sei muito bem o que fazer com tudo aquilo.
Além disso, tenho meus outros projetos em paralelo, meus sistemas, minhas ideias, meus trabalhos e as responsabilidades do dia a dia. Também ajudo minha mulher em algumas tarefas, embora agora essa participação deva diminuir bastante, porque conseguimos organizar praticamente tudo e ela já pode seguir com mais autonomia. Mas, até chegar a esse ponto, foram muitas coisas para resolver. Somando isso às responsabilidades com clientes, com a casa e com tantas outras questões, tudo acabou se acumulando. Fiquei estressado, desanimado, irritado e dormi mal durante vários dias. Cheguei a um ponto em que até coisas que normalmente me dão prazer pareciam cansativas. Não era necessariamente falta de vontade de criar, mas uma sensação de não ter mais energia para continuar fazendo tantas coisas.
Acho que agora, talvez, as coisas comecem a melhorar. Tenho a impressão de que o furacão emocional dos últimos dias finalmente está perdendo força. E, pensando sobre tudo isso, percebo o quanto essas situações podem nos prejudicar. Quando temos uma ideia, conseguimos amadurecê-la, entendemos o que queremos fazer e, mesmo com dificuldades, vemos as coisas funcionando, o esforço costuma trazer alguma satisfação. Podemos terminar o dia cansados, mas existe aquela sensação positiva de que estamos construindo alguma coisa. Agora, quando as coisas não dão certo, quando precisamos desistir de algo em que investimos tempo ou quando cada dia parece trazer um problema novo, a situação muda bastante. O esforço continua existindo, mas a satisfação desaparece, e aquilo que antes nos animava começa a nos desgastar. E aí é foda.
Mas por que resolvi escrever tudo isso? Primeiro, porque gosto de compartilhar essas experiências e organizar meus pensamentos enquanto escrevo. E também para lembrar a mim mesmo, e talvez a você, que às vezes precisamos dar um pouco mais de tempo às nossas ideias. Eu sei que você quer sair criando tudo assim que uma ideia aparece. Eu também quero, sou exatamente assim. Mas talvez valha a pena, depois de ter uma ideia, deixá-la de molho por alguns dias, semanas ou até meses. Permitir que ela amadureça, observar se o entusiasmo continua existindo depois que a empolgação inicial desaparece e perguntar se aquilo realmente merece nosso tempo e nossa energia. Se a ideia não persistir, talvez fosse apenas uma vontade passageira que, se tivesse sido colocada em prática imediatamente, poderia acabar se tornando mais um fardo. Isso não significa abandonar a espontaneidade ou deixar de experimentar coisas novas, mas entender que nem toda ideia precisa virar um compromisso.
Outra coisa que venho percebendo é que, às vezes, essas ideias surgem como uma forma de desviar nossa atenção de algo que realmente precisamos fazer. Criamos uma justificativa para dedicar nossa energia a uma novidade, geralmente muito mais interessante e empolgante do que aquele projeto antigo, difícil ou cansativo que está esperando por nós. A nova ideia parece incrível, cheia de possibilidades, e nos dá aquela sensação de estarmos fazendo algo importante. Enquanto isso, o que realmente precisava ser feito vai ficando para depois. E, quando percebemos, aquela grande ideia talvez não fosse tão necessária assim. Talvez fosse apenas uma maneira de fugir de uma responsabilidade, de um problema ou até da dificuldade de continuar algo que já não oferece o mesmo entusiasmo do começo.
Claro que nem sempre é assim. Às vezes, uma ideia nova é realmente boa, merece atenção e pode até nos levar a caminhos melhores. Não acho que devemos desconfiar de tudo que nos entusiasma, muito menos tratar a criatividade como um problema. Mas acredito que vale a pena refletir sobre nossas motivações, porque nem sempre aquilo que sentimos vontade de fazer é aquilo que realmente queremos ou precisamos fazer naquele momento.
Outra questão é que costumamos estabelecer objetivos e metas que, em determinadas circunstâncias, se tornam pesados demais para carregar. Criamos compromissos com nós mesmos, organizamos rotinas, planejamos produzir determinada quantidade de coisas e esperamos conseguir cumprir tudo aquilo. E isso é complicado, porque realmente queremos fazer essas coisas, elas têm importância para nós, mas nem sempre estamos em condições de realizá-las. Quando se trata de uma atividade mais mecânica, como decidir dedicar vinte minutos por dia para cuidar das plantas, por exemplo, geralmente conseguimos executar a tarefa mesmo sem muita disposição. Mas, quando envolve criatividade, o buraco é mais embaixo. Criar exige imaginação, concentração, envolvimento emocional, disposição mental e, muitas vezes, uma energia que simplesmente não temos naquele momento. Podemos até sentar diante de uma folha em branco e tentar produzir alguma coisa, mas, quando estamos esgotados, aquilo que normalmente seria prazeroso pode parecer quase impossível. E então vem a frustração, porque não conseguimos fazer algo que nós mesmos decidimos que deveríamos fazer.
Talvez uma das coisas mais difíceis seja aceitar que nossa disposição não é constante. Existem dias em que conseguimos fazer muitas coisas, temos boas ideias e sentimos que tudo está funcionando. Em outros, parece que até as tarefas mais simples exigem um esforço enorme. E, quando estamos acostumados a produzir, a criar e a manter a cabeça sempre ocupada, esses momentos de baixa podem provocar uma sensação desagradável de estagnação, como se estivéssemos desperdiçando tempo ou deixando de ser quem somos. Mas será que precisamos estar criando alguma coisa o tempo inteiro? Será que todo momento livre precisa ser preenchido com um novo projeto, uma nova meta ou alguma atividade que consideramos produtiva? Acho que essas são perguntas que também preciso fazer a mim mesmo.
Se isso acontece com você também, respire fundo e tente lembrar que amanhã será um novo dia. Hoje pode ter sido uma merda, mas talvez amanhã seja melhor. Às vezes, depois de alguns dias, as coisas começam a voltar ao normal, principalmente quando conseguimos diminuir o ritmo, descansar e parar de insistir em resolver tudo imediatamente. Nem sempre precisamos encontrar uma solução para cada problema naquele exato momento. Algumas coisas podem esperar, algumas ideias podem ficar guardadas e alguns compromissos que criamos para nós mesmos talvez precisem ser reconsiderados. Descansar não significa necessariamente desistir, assim como deixar um projeto de lado por algum tempo não significa que ele perdeu sua importância.
Claro, existem situações que exigem ajuda profissional. Faço questão de lembrar disso porque nem tudo se resolve apenas com descanso ou com o passar do tempo. Existem sofrimentos, esgotamentos e problemas emocionais que precisam de atenção e acompanhamento especializado. Procurar ajuda pode fazer uma diferença enorme, e não devemos reduzir toda dificuldade psicológica a uma simples fase que precisamos suportar até passar.
De qualquer forma, seguimos criando, imaginando e tentando transformar nossas ideias em alguma coisa. E acho que, aos poucos, estou aprendendo, mesmo que de maneira lenta e às vezes dolorosa, que preciso administrar melhor essa vontade de fazer tudo. Não quero deixar de ter ideias, muito menos perder o entusiasmo por criar. Isso faz parte de quem sou e é uma das coisas de que mais gosto em mim. O que preciso aprender é que ter uma ideia não significa que sou obrigado a realizá-la, que começar alguma coisa não significa que preciso terminá-la a qualquer custo e que nem tudo o que desejo fazer precisa ser feito agora.
Sei que existem coisas que estão além do meu controle, mas, naquilo que posso administrar, quero tentar fazer diferente. Talvez eu continue errando, assumindo mais coisas do que deveria e aprendendo da maneira mais difícil. Mas tudo bem, também faz parte.
Afinal, eu quero continuar criando coisas, só não quero que essa vontade de criar acabe consumindo toda a energia que preciso para viver.

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