Oi!
Eu estava pensando aqui em como é chato quando a gente sabe que tem algo a fazer e, mesmo assim, não faz.
Procrastinação é como chamamos isso. Talvez seja uma resistência da vontade, enfim... A gente quer criar, desenhar, escrever, produzir alguma coisa para o mundo e, mesmo assim, fica procurando desculpas para não fazer.
Porque, no fundo, mesmo quando se trata de algo que desejamos muito, a experiência de criar nem sempre é prazerosa. Muitas vezes, ela vem acompanhada de outras coisas: medo da rejeição, medo de falhar, de descobrir que não somos tão bons quanto imaginávamos, de desanimar, de nos sentirmos incapazes ou até de nos comprometermos com o próprio sonho e não conseguirmos realizá-lo.
Porque, sejamos sinceros, acho que muitos de nós, autores, já chegamos à conclusão, em algum momento, de que não éramos bons o suficiente.
Todos nós, vez ou outra, encontramos aquela pedra gigante no caminho. Uma pedra que, de alguma forma, funciona como um espelho distorcido, refletindo uma imagem de nós mesmos que não corresponde àquela que construímos em nossa cabeça e, muitas vezes, nem mesmo à realidade.
A frustração de não conseguirmos atingir o nível das nossas próprias ideias, aquela perfeição abstrata que existe nos sonhos, pode ser muito desgastante. Para uma mente insegura ou excessivamente perfeccionista, esse peso pode acabar afetando até outras áreas da vida.
Talvez a procrastinação seja, em parte, uma tentativa de nos proteger do fracasso. Ou melhor, de nos proteger daquele sentimento difícil de enfrentar quando falhamos.
O medo de descobrir nossas limitações, a incerteza do sucesso ou até mesmo a dúvida sobre o significado daquilo que estamos fazendo. Existem muitos motivos para evitar começar.
Ainda assim, continuamos tentando. Vamos nos adaptando, aprendendo a lidar com essa resistência e, talvez, nos tornando um pouco mais fortes diante dela. Mas não é fácil.
Talvez tudo isso que estou dizendo seja besteira. Talvez você nunca tenha passado por uma experiência assim ou já tenha aprendido a lidar com ela.
Mas eu queria conversar sobre isso. Sobre esse sentimento, essa preguiça, essa necessidade quase absurda de encontrar um motivo para não fazer justamente aquilo que desejamos fazer.
E é engraçado como encontramos desculpas para tudo.
Ainda não tomei banho. Preciso alimentar o cachorro. Daqui a uma hora tenho que sair. Estou com pouco dinheiro. Estou com dinheiro demais. Quero descansar, quero comer, quero qualquer coisa, menos fazer o que preciso fazer.
E o mais curioso é que eu sei que, quando começar, provavelmente vou gostar.
Sei que desenhar, escrever e criar me fazem bem. Sei que a disposição de que preciso muitas vezes aparece durante o próprio ato de fazer, e não antes dele.
Mas, quanto mais tempo deixo passar, quanto mais ignoro essa vontade, mais fraca e distante essa lembrança parece se tornar.
Ainda estou envolvido o suficiente para que a chama não tenha se apagado. Mas, se eu deixar esfriar, os dias podem se transformar em semanas, meses e até anos.
E então, depois de tanto tempo, quando já esqueci parte das dificuldades e frustrações, a vontade volta. E lá estou eu novamente, iniciando a mesma luta.
Só que agora o tempo passou.
E quanto mais esse ciclo se repete, menos tempo tenho pela frente.
Talvez chegue o dia em que eu olhe para trás e não me arrependa de tudo o que vivi. Certamente encontrarei momentos, experiências e pessoas que fizeram minha vida valer a pena.
Mas talvez exista alguma coisa que eu não tenha feito. Algo que faz parte de mim: criar.
E então surgirá a maior de todas as desculpas:
"Agora já estou velho demais para dedicar meus dias a isso."
Mas não é verdade. É apenas mais uma desculpa.
Porque eu não sei se vou morrer hoje, amanhã ou se viverei até os 130 anos. Nenhum de nós sabe.
Muitas vezes rejeitamos o agora porque nos sentimos jovens, como se tivéssemos uma reserva infinita de tempo. Mas a verdade é que não sabemos quanto tempo temos. Nossa existência está sujeita a tantos acasos que, no fim, o único momento que realmente possuímos é este.
E estava pensando justamente nisso hoje cedo.
Estou sem dinheiro. Já estive em uma situação financeira melhor. E me perguntei se não deveria estar trabalhando em alguma empresa, com salário fixo, rotina e tudo mais.
Mas logo depois me lembrei de que já vivi com muito menos do que tenho hoje e sobrevivi.
Por que, então, agora me preocupo tanto com dinheiro?
Talvez porque essa preocupação também faça sentido. Afinal, dinheiro não é apenas luxo, consumo ou uma busca por coisas materiais. É segurança, tranquilidade, a possibilidade de cuidar de quem amamos e até mesmo de preservar nossa liberdade.
Talvez exista uma contradição nisso tudo. Eu quero liberdade para criar, mas também preciso de alguma segurança para que essa liberdade seja possível.
E não acho que exista nada de errado em desejar as duas coisas.
O problema, talvez, seja quando a preocupação com uma delas começa a consumir completamente o espaço da outra.
Porque comecei a pensar: se eu morresse amanhã, qual seria minha tristeza? Não ter conseguido ganhar mais dinheiro?
Acho que não.
Talvez eu pensasse em tudo aquilo que deixei de criar. Em todas as ideias que ficaram apenas dentro da minha cabeça. Em não ter deixado meu pequeno grão de areia nessa praia imensa que é o mundo.
Talvez criar alguma coisa, deixar um pouco de mim em algum lugar, pudesse trazer algum conforto e paz ao meu coração.
Mas, mesmo que nada do que eu criasse durasse para sempre, ainda assim, eu gostaria de passar meus dias vivendo apenas em função do dinheiro e dos prazeres que ele pode proporcionar?
Talvez em outra vida. Talvez quando eu enxergar o mundo de outra maneira.
Mas, neste momento, minha liberdade vale mais do que qualquer coisa.
Isso não significa que eu não precise de dinheiro, que não deva me preocupar com o futuro ou que trabalhar para garantir uma vida confortável seja uma perda de tempo. Muito pelo contrário. Talvez seja justamente essa segurança que me permita continuar fazendo aquilo que amo.
Só não quero confundir os meios com os fins e nem esperar o conforto chegar porque somos humanos e eu sei que jamais estarei satisfeito com o que tenho.
Não quero passar a vida inteira tentando construir as condições perfeitas para viver e, quando finalmente conseguir, descobrir que deixei de viver aquilo que tanto desejava.
E penso que preciso aceitar isso para conseguir continuar criando.
Preciso compreender o que realmente importa para mim, para não gastar tanta energia perseguindo coisas que, no fundo, não fazem parte daquilo que sou.
Talvez essa consciência possa servir de alimento para minha alma de criador.
Porque, quando entendemos que cada minuto importa, que cada dia é uma nova oportunidade de criar, talvez comecemos a encontrar menos desculpas.
Afinal, parte dessas desculpas nasce justamente da insegurança sobre aquilo que fazemos.
E talvez o tempo que dedicamos ao que realmente amamos tenha muito mais significado do que uma busca cega por alguma coisa que nem sequer desejamos de verdade.
Eu sinto isso.
Essa energia criativa que existe dentro de nós parece nunca desaparecer completamente.
Mesmo quando estamos envolvidos em outras atividades, mesmo quando encontramos prazer em outras coisas, mesmo quando parece que já esquecemos nossos antigos sonhos, vez ou outra ela volta.
Às vezes, ao olhar para a escuridão do tempo, conseguimos enxergá-la lá no fundo.
Uma pequena luz que insiste em não se apagar.
Talvez seja isso.
Talvez eu esteja travando uma luta que não posso vencer, simplesmente porque estou lutando contra uma parte de mim mesmo.
Contra aquilo que desejo ser, contra aquilo que sinto necessidade de fazer.
E negar isso talvez seja, de fato, a maior perda de tempo.
Às vezes penso que as pessoas que se dedicam quase obsessivamente a alguma coisa são justamente aquelas que mais conseguem desenvolver suas capacidades.
Mas talvez seja importante distinguir essa dedicação de um vício. Porque existe uma diferença entre entregar-se intensamente a alguma coisa que amamos e perder o controle sobre ela. Nem toda dedicação intensa é saudável, assim como nem toda pessoa que dedica muitas horas a algo está necessariamente construindo uma vida melhor. - Eu quero criar porque isso me faz melhor, e não pior.
Talvez o segredo não esteja em viver exclusivamente para criar, mas em encontrar uma maneira de fazer da criação uma parte verdadeira da nossa existência, sem precisar sacrificar todo o restante.
Não significa que essas pessoas sejam mais felizes, nem necessariamente mais bem-sucedidas, mas talvez sejam aquelas que mais conseguem entregar ao mundo alguma parte de si, seja ela boa ou ruim.
E, pensando bem, talvez nem seja necessário entregar alguma coisa grandiosa ao mundo. Talvez o próprio ato de criar já tenha valor, mesmo quando ninguém vê, ninguém lê ou ninguém se importa.
Porque, no fundo, talvez não seja apenas uma questão de deixar alguma coisa para os outros, mas também de não abandonar aquilo que somos enquanto estamos aqui.
E acho que é isso que eu quero.
Quero deixar alguma parte de mim neste mundo.
Não necessariamente meus genes, meu sangue.
Mas minhas ideias, minhas histórias e minha maneira de enxergar a vida.

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