Oi!
Antes de qualquer coisa, acho importante fazer uma distinção entre hábito e disciplina. O hábito é aquilo que, pela repetição, passa a fazer parte da nossa rotina, tornando determinadas ações mais naturais e exigindo menos esforço para começar. Já a disciplina é a capacidade de fazer aquilo que consideramos importante mesmo quando não estamos com vontade, motivados ou inspirados. Uma coisa não substitui a outra. A disciplina nos ajuda a construir hábitos, enquanto os hábitos, uma vez estabelecidos, tornam um pouco menos difícil manter a disciplina. E acredito que, para quem deseja criar alguma coisa, especialmente quando falamos de projetos autorais, essa relação seja fundamental.
Acho que nós, autores, sabemos muito bem como a disciplina é importante para levar nossos projetos adiante. Claro que isso se aplica a praticamente qualquer área da vida, mas acredito que existam algumas particularidades no universo da criação que tornam essa questão ainda mais interessante. Muitos autores independentes e amadores sonham em se tornar profissionais, viver da própria arte, trabalhar criando todos os dias e, quem sabe, conquistar algum reconhecimento. Entretanto, sabemos que, na maioria das vezes, esse sonho parece distante. Quando nos dedicamos a um projeto autoral, não estamos lutando apenas contra a falta de tempo, mas também contra a escassez de recursos financeiros, o cansaço e as inúmeras outras possibilidades de uso daquele tempo. Poderíamos estar descansando, nos divertindo, aproveitando momentos com a família ou simplesmente fazendo qualquer outra coisa. Precisamos, portanto, conciliar o trabalho que garante nossa sobrevivência financeira com aquele que nos oferece sentido, satisfação e a esperança de que, talvez um dia, também possa nos proporcionar alguma renda.
Mas essa necessidade de disciplina não se limita aos que sonham em viver da própria arte. Mesmo aqueles que criam por puro amor ou diversão, sem grandes ambições profissionais, precisam de alguma constância para concluir seus projetos. E o mesmo vale para quem já conquistou reconhecimento, ganha dinheiro com suas criações ou até conseguiu transformar a arte em sua principal fonte de renda. Em diferentes níveis, todos precisam lidar com distrações, desânimo, dificuldades e aquela vontade de deixar para amanhã o que poderia ser feito hoje. Naturalmente, as circunstâncias mudam muito de uma pessoa para outra, mas acredito que exista algo em comum: em algum momento, precisamos fazer aquilo que decidimos fazer, mesmo quando a vontade não acompanha nossa decisão.
Quando trabalhamos para outras pessoas, geralmente conseguimos cumprir nossas obrigações mesmo quando não estamos com a menor vontade. Temos prazos, cobranças, compromissos, uma reputação a preservar e, principalmente, a necessidade de receber pelo nosso trabalho. Mas, quando a decisão depende exclusivamente de nós, parece que tudo se torna mais difícil. Pelo menos comigo é assim. E isso me faz pensar: se ainda temos dificuldade para manter a disciplina e construir hábitos alinhados com nossos próprios objetivos, mesmo desejando tanto alguma coisa, será que estaríamos preparados para lidar com as exigências dessa mesma atividade caso ela se tornasse nossa profissão? Se hoje, sem a pressão de um contrato, de um cliente ou de um público esperando pela próxima criação, já encontramos tantas razões para adiar, o que aconteceria quando essas responsabilidades passassem a fazer parte da nossa rotina? Será que conseguiríamos sustentar aquilo que tanto desejamos conquistar?
É claro que a motivação financeira, o reconhecimento, a satisfação pessoal e o sentido que encontramos no trabalho fazem diferença. Não podemos ignorar essas coisas. Mas gostaria de refletir especialmente sobre o presente, sobre aquilo que fazemos com o tempo que temos disponível. Muitas vezes dedicamos horas a atividades que não precisam necessariamente ser realizadas naquele momento, nos distraímos com coisas que pouco acrescentam aos nossos objetivos ou simplesmente deixamos passar oportunidades de criar. E não quero dizer com isso que tudo aquilo que não esteja diretamente relacionado à criação seja perda de tempo. Descansar, conviver com quem amamos, nos divertir e até não fazer absolutamente nada são partes importantes da vida. O problema, pelo menos como eu vejo, aparece quando aquilo que dizemos ser tão importante para nós acaba ficando sempre em segundo plano, mesmo quando temos condições de dedicar algum tempo a isso. Se formos sinceros conosco, talvez percebamos que, em muitas ocasiões, poderíamos estar escrevendo, desenhando ou desenvolvendo nossas ideias, mas simplesmente não fazemos nada.
E por que seria diferente se tivéssemos um contrato assinado? Não há como negar que receber um salário no final do mês poderia mudar completamente nossa relação com o trabalho criativo. Mas que salário seria esse? Quanto precisaríamos ganhar para sentir toda essa motivação? E quanto precisaríamos produzir para justificar esse valor? Estaríamos realmente preparados para atender a uma demanda profissional, cumprir prazos e continuar criando mesmo quando as coisas não estivessem saindo como gostaríamos? Alguém poderia argumentar que, ao atingir esse nível, teríamos melhores condições financeiras, talvez uma equipe para ajudar, mais tempo disponível e menos preocupações com outras responsabilidades. E eu concordo. Essas condições certamente poderiam facilitar muita coisa. Afinal, criar enquanto precisamos nos preocupar constantemente com dinheiro, contas e sobrevivência é muito diferente de criar com alguma estabilidade financeira. Mas isso não elimina uma questão que considero importante: antes de chegar lá, precisamos encontrar uma maneira de continuar caminhando com aquilo que temos hoje.
E é justamente nesse caminho que entram os hábitos e a disciplina. Podemos contar com a sorte, esperar por uma oportunidade e desejar que nosso trabalho seja reconhecido, mas precisamos continuar criando para ter alguma coisa a oferecer quando essas oportunidades aparecerem. Claro que existem exceções. Algumas pessoas encontram o sucesso de maneira inesperada, outras conseguem reconhecimento com relativamente pouco esforço, enquanto muitas trabalham durante anos sem alcançar o mesmo resultado. Não existe uma relação perfeitamente justa entre dedicação e recompensa. Ainda assim, penso que desenvolver hábitos favoráveis ao nosso crescimento como artistas, tomar decisões que nos aproximem dos nossos objetivos e exercitar a disciplina, mesmo quando não recebemos nada em troca, são atitudes que podem fazer diferença. Não porque garantam o sucesso, mas porque aumentam nossas possibilidades de amadurecer, desenvolver habilidades, construir um repertório e estar mais preparados quando alguma oportunidade surgir.
Às vezes vejo a quantidade de concursos, seleções, chamadas para publicação e outras oportunidades que aparecem no universo criativo e me pergunto quantas pessoas realmente estão preparadas para aproveitá-las. Quantas desenvolveram uma rotina que favorece a criação? Quantas conseguiram transformar o desejo de escrever ou desenhar em alguma prática constante? Quantas deixaram de participar simplesmente porque não tinham nada pronto, porque adiaram seus projetos durante meses ou porque esperaram por uma inspiração que nunca chegou? Não digo isso como uma cobrança, até porque me incluo nessas perguntas. Mas acredito que, quando deixamos de criar, também podemos estar deixando passar oportunidades que nem sabemos que existem. E talvez uma obra que hoje parece não ter grande importância seja justamente aquela que, no futuro, abra alguma porta. Não temos como saber.
A verdade é que nada disso é fácil. Estamos falando de um caminho que, muitas vezes, não oferece segurança, estabilidade ou qualquer garantia de reconhecimento. Podemos dedicar anos a alguma coisa e nunca receber o retorno que imaginávamos. E talvez seja por isso que considero tão importante que nosso sonho, objetivo ou propósito de criação tenha algum significado que vá além do dinheiro ou da fama. Não porque desejar reconhecimento ou uma boa condição financeira seja errado, muito pelo contrário, mas porque, se toda a nossa motivação depender exclusivamente dessas recompensas, como vamos continuar quando elas não aparecerem? O que nos fará seguir criando depois de uma rejeição, de um projeto fracassado ou de meses sem qualquer resultado? Acredito que encontrar um sentido pessoal naquilo que fazemos não elimina o desânimo, a frustração ou a vontade de desistir, mas pode nos oferecer razões para continuar mesmo quando o mundo parece indiferente ao nosso trabalho.
Entretanto, existe uma questão que considero fundamental: mesmo quando temos clareza sobre nosso propósito, ainda precisamos de hábitos e disciplina. Gostar de alguma coisa não significa necessariamente ter vontade de fazê-la todos os dias. Amar escrever não significa que todas as vezes que sentarmos diante de uma página em branco teremos prazer em escrever. O mesmo vale para desenhar, estudar, desenvolver personagens ou qualquer outra atividade criativa. Não podemos depender exclusivamente da inspiração ou nos apoiar na história de alguém que passou anos sem produzir nada e, de repente, recebeu uma grande oportunidade. Essas coisas podem acontecer, mas são exceções. Para a maioria de nós, o caminho provavelmente será muito menos extraordinário e muito mais repetitivo: sentar, tentar, errar, aprender, produzir, recomeçar e continuar. E, se pensarmos em termos de sorte e acaso, talvez possamos dizer que quem cria e tenta com mais frequência também aumenta suas chances de encontrar alguma oportunidade. Não porque a sorte seja obrigada a recompensar o esforço, mas porque precisamos estar de alguma maneira presentes para que determinadas coisas possam acontecer.
E aqui chegamos a uma realidade um tanto frustrante: não existe uma fórmula mágica para desenvolver disciplina ou criar bons hábitos. Podemos experimentar métodos, estabelecer horários, organizar melhor nossos ambientes, definir pequenas metas e procurar maneiras de tornar o processo mais agradável ou produtivo. Algumas dessas estratégias podem funcionar muito bem, outras talvez não funcionem para nós. Também teremos dias em que estaremos cansados, preocupados, desanimados ou simplesmente sem condições de produzir, e reconhecer isso faz parte do processo. Mas acredito que a disciplina precisa ser exercitada, assim como precisamos repetir determinadas ações para que elas se tornem hábitos. É quase como treinar um músculo: começamos com alguma dificuldade, encontramos resistência e, aos poucos, desenvolvemos mais capacidade para enfrentar aquilo que antes parecia tão custoso. Não significa nos forçar a produzir a qualquer preço, ignorar nossos limites ou transformar a criação em mais uma fonte de sofrimento. Significa aprender a distinguir os momentos em que realmente precisamos descansar daqueles em que estamos apenas procurando uma desculpa para não começar.
Talvez essa seja uma das partes mais difíceis da vida criativa: compreender que nem sempre vamos sentir prazer naquilo que amamos fazer. Em alguns dias, escrever será maravilhoso; em outros, pode parecer uma obrigação. Às vezes teremos ideias incríveis, enquanto em outros momentos tudo parecerá sem graça, repetitivo ou até inútil. E ainda assim, se aquilo que estamos construindo realmente importa para nós, precisamos encontrar alguma maneira de continuar. Não necessariamente no mesmo ritmo, com a mesma intensidade ou com resultados igualmente bons, mas continuar de alguma forma. Porque acredito que essa prática também nos prepara psicologicamente para lidar com a incerteza, a frustração e as dificuldades que inevitavelmente surgirão. Não existe garantia de que todo esse esforço será recompensado, mas existe a possibilidade de nos tornarmos melhores naquilo que fazemos, e isso, por si só, já pode ter algum valor.
Também penso que a disciplina não deveria servir apenas para nos obrigar a produzir, mas para proteger aquilo que consideramos importante. Quando criamos um hábito, estamos de certa forma reservando um espaço da nossa vida para algo que poderia facilmente ser engolido pelas inúmeras exigências e distrações do cotidiano. E talvez essa seja uma maneira interessante de encarar tudo isso: não como uma cobrança permanente por produtividade, mas como um compromisso com nós mesmos, com aquilo que desejamos construir e com a pessoa que esperamos nos tornar. Afinal, se não encontrarmos algum espaço para nossos próprios projetos, dificilmente o mundo vai simplesmente nos oferecer esse espaço de presente.
E escrevo tudo isso não apenas para falar com você, mas principalmente para mim mesmo. Porque também encontro dificuldades, também adio projetos, também me distraio e muitas vezes deixo de fazer aquilo que sei que gostaria de estar fazendo. Talvez seja justamente por isso que considero esse assunto tão importante. Preciso me lembrar de que nem sempre é necessário sentir vontade para começar, de que a inspiração muitas vezes aparece durante o processo e não antes dele, e de que o hábito e a disciplina podem nos ajudar a vencer aquela resistência inicial que parece tornar tudo tão difícil. O começo pode ser desconfortável, especialmente quando ainda não existe uma rotina estabelecida, mas, depois que conseguimos entrar no ritmo, muitas vezes as coisas passam a fluir com mais naturalidade.
No fim, talvez a disciplina não seja apenas fazer aquilo que precisa ser feito, mas aprender a não abandonar tão facilmente aquilo que realmente importa para nós. E o hábito seja justamente uma maneira de tornar essa escolha um pouco mais fácil, até que criar deixe de ser algo que precisamos constantemente negociar conosco e passe a fazer parte da nossa vida.

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